sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Assalto à fortaleza?

Sem me perguntar nem porque sim nem porque não,
a minha cabeça é assaltada, por pensamentos
pensamentos do passado,
mas senti-os reticentes, angustiados,
queres pensar mesmo nisto, a sério?
outra vez esse exercício?
quantas vezes precisas de ir lá ver, de apalpar de sentir?
talvez milhares, milhões, sei lá,
e lá vieram disparados uns quantos pensamentos,
pedem licença, mas quando vou a ver estão "esparrameirados" na melhor sala,
nos melhores lugares, como quem diz, isto é tudo meu!
não sei para quê esses pruridos dizem eles, 
até porque sabes bem que quando vimos cá até trazemos pipocas.
E começam por aí fora, a discorrer e a questionar e a perguntar sem pudores,
Como é que te sentes, passado quase 10 anos do trágico fim?
e eu a patinar mas ao mesmo tempo firme, sinto-me tão bem que até estranho.
habituamo-nos a viver no medo, e na angústia tanto tempo que depois parece estranho não a sentir.
Pensei, pensei, a tentar encontrar a melhor forma de colocar em palavras o que sentia.
mas o sentimento não é feito de palavras.
as palavras não o acomodam no seu todo.
mas veio devagarinho em ondas
um tecto e um chão para se guiar
sem remorsos desta vez, com a dor apaziguada
com uma voz embargada ainda porque o sentimento do passado aflora
veio uma imagem, uma cara distorcida e ao mesmo tempo verdadeira do monstro
foi curioso porque não era o príncipe, não era o encantamento e idealização do passado,
parecia real, aparecia sem máscara, sem pós de pirlimpimpim...
e olhava para ele sem emoção,
um rosto conhecido mas desconhecido,
nos trejeitos estava lá, mas era ausente.
Algo que nunca consegui ver na minha cegueira.
a preto e branco, sem cor, sem alma
tudo fazia mais sentido.
Ainda perguntam os pensamentos, mas o que é que sentes?
já não questiono o que vivi,
porque era eu que não sabia viver, que precisava de outros para me suportarem
para me acolherem, para me dizerem o que merecia ou não, 
o que fazia bem ou mal.
Quando é assim, estamos sujeitos ao escrutínio dos outros e como tal aos seus erros.
Não respondi.
Eu sei.
continua a ser difícil descrever o que se sente, porque o sentimento não se escolhe, nem se encolhe.
não existe qualquer desejo
não existe desespero
não existe amor
não existe emoção
mas ainda existe raiva
ainda existe a revolta
ainda existe a injustiça
e a vontade de repor a verdade.
Já não persigo nem tento fazer algo por isso.
Já confio mais no tempo.
Mas ainda sinto isto.
Ignorar não
Fingir não
Confrontar sempre
Falar sempre
Mais que tudo existe a memória,
existe a vontade de apagar algo ruim
que me manchou que me desviou de um caminho
e mais do que a pessoa 
a revolta centra-se em mim, por ter aceite, por ter vivido, por me ter submetido
por não ter tido capacidade de sair e não voltar da 1ª vez,
ou ainda de ter feito um erro horrível de casting,
onde andava eu, o quão perdida estava por encontrar um sonho
um ideal, que me vendeu tão sobriamente,
e eu idolatrei-o como se fosse de cristal,
como se partisse, como o mais precioso da minha vida,
sentia algo tão distinto, tão forte, que era mais forte do que a própria visão do mal,
do que ouvir com todas as letras na minha língua o inimaginável horror,
ouvia bem, em alto e bom som, mas traduzia para outra mensagem.
Aquela linguagem ainda que agreste, significava sempre algo diferente.
em toda a lost of translation havia um pedido de desculpa,
mas porquê se eu tinha percebido bem e interpretado correctamente,
era um sinal, mais um que descurei.
e tantos outros, com todos os sentidos a buzinarem,
e eu a ignorar, a fugir, e achar que o mundo é que estava mal, 
ninguém compreendia, ninguém sabia, só eu sabia e percebia tudo e nada.
Completamente absorta nas trincheiras, na micro vida,
como se o mundo fosse acabar, e nada mais era importante do que resolver, do que ajudar.
O mote foi sempre esse, ajuda-me.
Eis que ajudar parece ser algo que sou incapaz de recusar a alguém.
O que estará na origem de me recusar a ajudar.
O que me impede de dizer que não? não não te ajudo.
Não quero, não me apetece, não vou. não falo, não digo, não fico.
Nada impede, senão o peso da culpa, da vontade de ver os outros felizes de serem capazes.
porque eu sou capaz de tudo, eu aguento tudo, eu sou forte.
Eu suporto,
Eu faço
Eu digo
Eu dou o corpo às balas, porque eu sou capaz.
E assim me defino.
Assim me encontro.
Nesta índole, de capacidades dignas de uma fortaleza, e incapacidade de dizer um simples não!












quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Experimenta

Experimenta passar de fininho num holofote, 
experimenta!
Experimenta passar a página colada, 
experimenta!
Experimenta dormir sem sono, 
experimenta!
Experimenta cantar sem voz, 
Experimenta só!
Experimenta acordar sem tecto, 
experimenta!
Experimenta levantar sem andar!
Experimenta tudo,
Experimenta nadas,
Experimenta não sentir, experimenta!
Experimenta a dor, 
experimenta!
Experimenta o terror, 
experimenta!
Experimenta ouvir e calar!
Experimenta só!

E agora?
AGORA o luxo do depois,
Do tão bom,
Do assim assim
Do Mau
Do péssimo
Acabou!
Sem mais, nem menos.
Chega!
Amanhã recomeçamos!
Experimenta.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

de quando em vez

de quando em vez ainda salto a janela,
de quando em vez ainda salto do carro em andamento,
de quando em vez ainda tento escapar,
de quando em vez ainda sinto aquele rosnar feroz,
aquelas faíscas no ar, e o rugir do monstro,
de quando em vez ainda sinto a sua raiva, a sua frustração,
de quando em vez ainda sinto a mão levantada e a estalada na cara,
o encontrão contra a parede, o pontapear contra o chão,
o soquear sôfrego sem respirar,
e de repente eu sossego, cansada de me debater, de tentar ripostar e defender
de uma força maior, um ser animalesco em que transfigura.
Assoma outra figura, sem alma, sem coração, sem humanidade.
Não pára, não estremece, mesmo contra um corpo inerte.
Largo-me, esqueço-me e tento escapar-me dali.
Falo baixinho dentro de mim, se me esquecer de mim, não sinto, não sou eu.
Vou embora para longe deste drama, deste espaço, de mim e deste ser que permito que habite em mim.
E assim esmoreço, e fico sem acção, mas não parece fazer efeito...
o coração a bombear mais lentamente, porque parti, mas o corpo continua a sentir,
só mais tarde, tarde demais, pára, e ainda assim não se sente satisfeito,
ainda vem aos repuxos apostar em mais investidas.
e tenta ainda ofender mais verbalmente, porque o físico apenas não é suficiente.
eu ali, quieta, a pensar baixinho, se não lutar talvez volte a ser humano e pense que é cruel,
bater em quem não se defende sequer... e fico sossegada a sentir na pele a força da impunidade.
sem qualquer pudor, nem temor.
até se cansar, até se fartar.
e foi assim muitos dias, muitas noites, muitos, muitos.
assim puro e duro, sem contornar, sem doirar.
de quando em vez ainda sinto tudo,
mas só de quando em vez.
porque o muito de vez em quando, já passou.


domingo, 28 de julho de 2024

Poros

Sempre em fuga,
Sempre em modo de sobrevivência.
Respirar não é suficiente,
é preciso refugiar.
Sem, saber de quê, é fugir,
sem olhar para trás,
sem pensar,
sem questionar,
simplesmente correr,
sempre os poros,
esses poros na pele...
os poros abertos em alerta,
e sem descanso,
brotam gostas de suor sem pejo,
e o corpo faz o seu curso,
as reservas são para esta altura,
todos os centimetros de carne,
são usados,
e ainda que transpirado,
o corpo luta desenfreado,
e continua a consumir,
sem parar, sem se queixar,
não existe dor,
não existe tempo,
apenas o momento,
sem tréguas,
a vida está ali em câmara lenta,
em grande velocidade.
Tudo parece aquele instante,
a liberdade,
e a prisão.
Não existe visão,
não existe verdade.
Apenas sentir.
Apenas repelir olhar,
não olhar para atrás,
medo, pânico,
incapaz de ver,
apenas seguir em frente.
Sem reflectir,
sem ponderar,
sem tentar.

A selva parece estar em mim,
e não eu na selva,
por isso ela me encontra.
sempre que estou em apuros,
a selva apodera-se de mim.
os poros abrem-se, 
e tudo recomeça.
Correr, correr, e sair dali.
o selvagem que me persegue,
que não me deixa parar de correr,
tem sempre um poder enorme.
Que me corroi,
que me faz pensar o pior,
que não me deixa relaxar.
que não me permite, acreditar.
não sei o que pensar,
quando sinto inconsistência,
falta de coerência,
qualquer coisa sem sentido,
ficou confusa,
sem conseguir perceber como reagir.
surge algo no radar,
desconhecido e não interpretado.
Fico nauseabunda,
preciso de entender,
preciso de estabilidade.
Preciso tanto de amor.
tudo no sitio certo,
tudo bem,
tudo com sentido.
ordem!
preciso de ordem.
porque a selva,
é o sitio onde os animais mordem.











quarta-feira, 11 de outubro de 2023

red flag

sem peso mas esmagador,
sem barulho mas ensurdecedor,
sem tacto mas totalmente palpável,
sem sabor mas indigesto,
sem ser visto mas totalmente transparente,

estão em todas as esquinas,
parapeitos e varandas,
não se dá por eles,
apesar de traquinas,
quando ensurdecedores,
encontramos desculpas
para serem indolores,
adiam-se conversas,
argumentos vários,
e todos os sinais esquecidos.

Tudo tem justificação,
tudo se adia,
para não estragar,
para manter a ilusão.
Valida-se por momentos,
e no todo não vale a pena pensar.

contorna-se ao lado,
e empodera-se no nada é perfeito
castra-se nos porquês,
e deita-se no leito.
Amanhã outro dia,
esquece e adia.
não é palpável não merece,
fica pelo lamento.
E continua o tormento.

A mentira toma lugar.
a verdade é pouco importante
e no meio da sala o elefante,
que não queremos olhar.




terça-feira, 26 de setembro de 2023

miudinha

miuda com as suas crises,
miudinha com as ciumices,
miuda com pequenices,
miudinha com traquinices.
miuda que se contraria,
raiva que se avizinha,
sem quê nem para quê,
tal birra de bebé,
sabe porquê,
mas não consegue lidar,
e fica com o coração a palpitar,
e a ânsia de dizer e refilar,
sem se conter nem espantar,
e assim sem parar,
vai ao rubro a bradar,
de tempos a tempos já não sabe a razão,
e quando a tem, já a perdeu.
Não atingem os outros o estado de tensão,
e a eloquência da situação.
Com tal intensidade,
porque ninguém entende de verdade,
Mais tarde já se arrependeu.
Deixar cair não é o seu lema,
e não consegue largar o tema.
O tempo não cura,
aumenta a agrura,
e dias de tristeza e inação,
serpenteiam com dias de total atenção,
odeio esta sensação,
mas não se evita sentir,
e quando acontece deixa de ser.



quinta-feira, 10 de agosto de 2023

de todo

de todo 
e de nada,
acresce que deixou de ser.
Assim, tão natural,
se a fresta da janela deixa passar,
sim, de quando em vez, vem uma brisa,
já não é fria,
é apenas um ar que se lhe dá.
Algo que não é indiferente,
mas que não retira paz,
que não provoca azedume,
que não mais teme,
o corpo não flecte,
e a alma não geme.
Apenas, está ali, 
semblante tranquilo.
Tal como vem também vai,
e ocorre que até se apraz de não agoniar,
nem rodopiar em corridas de culpas,
sem traços malignos,
apenas paira a validar.
Sem tragédia nem drama,
vejo-a passar,
e não viro costas, não a nego,
aceito-a, enfrento-a sem medo.
Vive em mim, a cicatriz que deixou,
a brisa que lhe assobia,
e a sente!
Mas apenas e quase sempre na mente.
Sem tento nos pensamentos,
passeia com o seu manto,
por cantos e recantos,
explora e devora pequenos anseios,
e provoca alguns devaneios,
e depois de se vangloriar,
por ter rua onde pairar.
Sai de fininho e devagarinho,
para o seu lugar.