sexta-feira, 9 de maio de 2025

de quando em vez

de quando em vez ainda salto a janela,
de quando em vez ainda salto do carro em andamento,
de quando em vez ainda tento escapar,
de quando em vez ainda sinto aquele rosnar feroz,
aquelas faíscas no ar, e o rugir do monstro,
de quando em vez ainda sinto a sua raiva, a sua frustração,
de quando em vez ainda sinto a mão levantada e a estalada na cara,
o encontrão contra a parede, o pontapear contra o chão,
o soquear sôfrego sem respirar,
e de repente eu sossego, cansada de me debater, de tentar ripostar e defender
de uma força maior, um ser animalesco em que transfigura.
Assoma outra figura, sem alma, sem coração, sem humanidade.
Não pára, não estremece, mesmo contra um corpo inerte.
Largo-me, esqueço-me e tento escapar-me dali.
Falo baixinho dentro de mim, se me esquecer de mim, não sinto, não sou eu.
Vou embora para longe deste drama, deste espaço, de mim e deste ser que permito que habite em mim.
E assim esmoreço, e fico sem acção, mas não parece fazer efeito...
o coração a bombear mais lentamente, porque parti, mas o corpo continua a sentir,
só mais tarde, tarde demais, pára, e ainda assim não se sente satisfeito,
ainda vem aos repuxos apostar em mais investidas.
e tenta ainda ofender mais verbalmente, porque o físico apenas não é suficiente.
eu ali, quieta, a pensar baixinho, se não lutar talvez volte a ser humano e pense que é cruel,
bater em quem não se defende sequer... e fico sossegada a sentir na pele a força da impunidade.
sem qualquer pudor, nem temor.
até se cansar, até se fartar.
e foi assim muitos dias, muitas noites, muitos, muitos.
assim puro e duro, sem contornar, sem doirar.
de quando em vez ainda sinto tudo,
mas só de quando em vez.
porque o muito de vez em quando, já passou.


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